Jaime é chamado, por quem está longe dele, de Trator, e quem o vê imediatamente entende o motivo. Ele não é alto, mas é musculoso, seus braços tem a grossura de uma perna de uma pessoa comum, e as pernas dele então… Mas o apelido de Trator não tem só a ver com seu corpo, e sim com seu jeito. A maneira como se veste é totalmente utilitária: uma jaqueta cinza que aparentemente ele só lava quando toma banho, o que deve acontecer uma vez por semana, camisetas que originalmente deveriam ser brancas, mas de tão velhas tomaram aquele encardido amarelo, e calças jeans besuntadas de graxa. Seus cabelos já deixaram o topo de sua cabeça faz tempo, mas ele ainda faz o rabo de cavalo no cabelo grisalho. Diz a lenda que ele vestiu um terno no enterro de sua mãe, mas não há testemunhas oculares dignas de crédito deste evento.
Quem olha suas roupas imagina que ele trabalha como mecânico de motocicletas; e apesar de sempre ser visto na região da general osório, geralmente pechinchando preços de carburadores velhos, motos são apenas um hobby para ele. Mas não vá chamá-lo de cabeleireiro, pois ele não é: talvez seja melhor dizer que ele é “ajudante-geral” do salão de cabeleireiros de sua irmã. É claro que ele detesta admitir isso, e na maior parte das vezes se alguém perguntar ele vai responder apenas com resmungos. Mas dá a ele, uma coisa que muitos dos seus conhecidos gostariam que ele tivesse menos: tempo. No intervalo das idas ao banco e ao supermercado – sua irmã tentou uma vez levá-lo à Ikesaki, mas ele derrubou uma das prateleiras de esmalte para unhas, e um dos esteticistas clientes desmaiou bem em cima dele, o que não contribuiu para que o fuzuê armado fosse menor, e agora ele está proíbido de entrar em qualquer loja de produtos de beleza – ele fica perambulando pelo bairro, onde mora a mais de vinte anos e é conhecido por grande parte das pessoas que trabalham na região, aparecendo ora na farmácia, ora na padaria, ora na loja de móveis; em cada uma destas e das outras lojas da região ele tem um indefectível conhecido, com o qual está resolvendo algum assunto, seja do salão de sua irma, seja do jogo do bicho, do qual é um adepto renitente, e curiosamente sortudo. Não há dia em que ele não vá procurar um dos seus conhecidos para reclamar do resultado do bicho, ou dar sugestões para tal e qual assunto. Se ficasse apenas nos conhecidos, no entanto: apesar de sua voz ser baixa e grave, parecendo de certa maneira que vem de algum lugar lá embaixo de seus pulmões, ela tem uma qualidade surpreendente de se espalhar a sua volta e ser ouvida em todos os cantos do local onde ele estiver. E quando o assunto é muito importante – como por exemplo a dificuldade de se encontrar peças para uma CB 400, daquelas nas quais o peso maior já é o do arame das gambiarras do que o metal original da moto – ele não se furta a dirigir a palavra pessoalmente para o incauto que estiver mais próximo. E como é insistente: se o coitado, por simpatia ou apenas curiosidade, dar trela a sua conversa, logo seu ouvido será alugado com reclamações sobre mecânica de motos, jogo do bicho, a vizinhança, a molecada de hoje em dia que só quer saber de internet, até o momento em que vai passar apenas a se lamuriar de sua vida em resmungos incompletos. E nisto seu interlocutor terá saído do açougue, passado na farmácia, na banca de jornais, na agência de correios, e ainda não terá conseguido se livrar dele.
Quando o comércio local fecha, ele ainda deve ficar de plantão para sua irmã, que deixa o salão aberto até as oito da noite. No entanto ele não vai ficar lá assistindo novela, então vai para o bar da esquina, jogar sinuca e papo fora com dois ou três motoqueiros velhos. Mas não bebe, nem uma cachacinha. No bairro corre a história de que, mal adolescente, chegou em casa com um leve bafo de pinga, e sua mãe lavou sua boca com sabão. Após isso nunca mais bebeu, e sempre olha com cara feia quando lhe oferecem um trago.
Poderíamos imaginar que um dos motivos de suas lamentações seria a solidão, pois até ele mesmo admite que sua juventude já foi faz tempo. Mas as patroas da região o temem, pois ele é o grande “lover” das empregadas da região. De tanto se irritar com o constante vai e vem, sua irmã reformou os fundos do salão de cabeleireiros, onde os dois vivem, para que seu quarto tivesse uma saída exclusiva. E não é apenas na sua faixa etária que ele faz estragos. Talvez seja o jeito rústico, de “macho de verdade”, talvez seja uma paciência incomum hoje em dia, e o fato de também saber escutar muito; de qualquer forma, meninas muito mais novas do que ele passam a noite no seu pequeno quarto, apesar do cheiro de graxa e das peças de motos espalhadas pelo chão. E estas meninas ainda ficam inconsoláveis e vão chorar no ombro da irmã dele, que o faz escutar poucas e boas depois. Ele então vai para o centro da cidade e fica fora o dia inteiro, resmungando que vai achar um novo emprego e sair daquela vida. Mas já se vão 30 anos nessa lida, e nenhum dos irmãos se vê, na verdade, longe um do outro em qualquer futuro.
